Tartarugas marinhas em Cabo Verde

As tartarugas marinhas têm vagado pela Terra por mais de 150 milhões de anos. Durante esse período, sete espécies diferentes evoluíram separadamente e se tornaram o que conhecemos atualmente como tartarugas marinhas. Elas desempenharam, e ainda desempenham, um importante papel nos nossos oceanos, mantendo diferentes ecossistemas marinhos saudáveis e em equilíbrio. No entanto, durante os últimos 100 anos, as tartarugas marinhas vêm enfrentando diferentes ameaças antropogênicas (de origem humana) que ameaçam a sobrevivência delas. A Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, da UICN (União Internacional para a Conservação da Natureza, IUCN em inglês) inclui 6 das 7 espécies  de tartarugas marinhas. O status de conservação da outra espécie não incluída, a tartaruga de casco achatado, é desconhecido.

Em Cabo Verde, cinco espécies diferentes de tartarugas marinhas foram encontradas: tartaruga de couro, verde, cabeçuda, de pente e oliva. Dessas espécies, somente a tartaruga-cabeçuda desova regularmente no país. O arquipélago é lar de uma das maiores aglomerações de desova de taratarugas-cabeçudas, e a única principal área de desova dessa espécie em todo a costa leste do Atlântico. Isso é ainda mais impressionante dada a ampla distribuição da espécie ao redor do globo.

Uma tartaruga cabeçuda adulta média em Cabo Verde:

Apesar de que em 2015 o status global das tartarugas-cabeçudas tenha sido alterado de ameaçado para vulnerável, a subpopulação do Nordeste do Atlântico (Cabo Verde), permaneceu como ameaçada. O grupo especialista em tartarugas marinhas da UICN listou, em 2011, essa população como uma das 11 populações de tartarugas marinhas mais ameaçadas do mundo. Devido à alta filopatria das fêmeas de tartarugas marinhas (elas são fiéis aos seus locais de reprodução) e à lenta dispersão para outros locais de desova, Cabo Verde é essencial para a reprodução das tartarugas-cabeçudas. 

Em Cabo Verde, o consumo da carne de tartaruga marinha é uma tradição persistente, assim como o consumo de ovos em algumas ilhas, e  também a caça dos machos em busca de afrodisíacos. Em 1987, a caça de tartarugas marinhas foi banida durante a época de desova em Cabo Verde; em 2002, foi banida durante o ano todo; e em 2005, a posse, caça, consumo e exploração de tartarugas marinhas e seus ovos se tornaram explicitamente proibidos por lei. Em 2018, o governo, com o apolo de todos os grupos políticos, aprovou uma nova lei que criminaliza todas essas atividades ilegais, e definiu as bases para a conservação de tartarugas marinhas em Cabo Verde. Apesar dos regulamentos do governo Cabo-verdiano, a morte de fêmeas que chegam à praia para desovar ainda é um problema observado em todo o país.

A vida das Tartarugas Marinhas

As tartarugas marinhas têm um ciclo de vida longo e complicado. Elas só atingem a maturidade sexual depois de 15 a 25 anos, e quando a atingem, só se reproduzirão a cada 2 ou 3 anos, até atingirem entre 45 e 50 de idade. Nas primeiras etapas da vida, elas são muito vulneráveis. Os ovos são colocados debaixo da areia, ficando expostos a muitas ameaças naturais e antropogênicas. Não há cuidado parental, ou seja, o filhote de tartaruga marinha começa a sua jornada sozinho. Filhotes e juvenis de tartarugas lidam com ameaças como predação, e até mesmo tartarugas adultas vão batalhar contra a caça ilegal e a poluição marinha. No fim, somente 1 em cada 1000 filhotes atinge a idade adulta.

 

Provavelmente uma das coisas mais incríveis sobre as tartarugas marinhas é a habilidade que elas têm de encontrar o seu caminho de volta depois de passar 20 anos nadando pelos oceanos. A teoria mais aceitada é a de que elas sigam o campo magnético terrestre para encontrar o local onde nasceram, apesar de que possivelmente outros mecanismos possam ajudá-las também. Elas também podem se mudar para novas áreas por perto, sempre buscando locais tranquilos com boas condições para a desova.

 

As tartarugas marinhas não têm cromossomos sexuais como os mamíferos. Ao invés disso, o sexo delas é determinado pela temperatura de incubação dos ovos (em inglês chamado de TDS – temperature-determined sex). Os ninhos incubados em temperaturas mais baixas podem gerar mais machos, enquanto ninhos incubados em temperaturas mais altas podem gerar mais fêmeas. Apesar de a temperatura pivotal (temperatura onde 50% dos ovos são fêmeas e 50%, machos) variar entre diferentes populações, 29ºC é considerada a temperatura de incubação equilibrada.

A Importância das Tartarugas Marinhas

As tartarugas marinhas estão no topo da cadeia alimentar na maioria dos ecossistemas marinhos. Como toda megafauna, elas ajudam a manter os ecossistemas saudáveis, e estão envolvidas em diferentes etapas da cadeia alimentar. O desaparecimento das tartarugas marinhas e de outras espécies-chave dos nossos oceanos afetaria o equilíbrio dos ecossistemas marinhos, e consequentemente, teria um grande impacto social e econômico para os seres humanos.

 

Navegue nesse diagrama de um ecossistema marinho para aprender mais sobre a importância ecológica das tartarugas marinhas.

As tartarugas são, portanto, muito importantes para diferentes ecossistemas e muitas outras espécies dependem delas. Outro aspecto importante das tartarugas marinhas é que elas podem ajudar a evitar alguns impactos das mudanças climáticas nas comunidades costeiras. A existência de ecossistemas dunares e de recifes saudáveis e fortes previnirá a inundação de áreas costeiras devido ao aumento do nível do mar e devido a eventos climáticos extremos como furacões.

 

Se formos pensar por um aspecto mais amplo, nós veremos que todos os papéis que as tartarugas marinhas desempenham no ecossistema marinho têm um benefício direto ou indireto para os humanos. Mas elas também trazem alguns impactos socioeconômicos importantes nas comunidades costeiras onde elas desovam. Por meio do ecoturismo, conservação e pesquisa, centenas de Cabo-verdeanos são empregados anualmente. Em 2016, a rede para a conservação de tartarugas marinhas de Cabo Verde, TAOLA, liderada pela diretora do Projeto Biodiversidade, preparou um estudo do impacto socioeconômico das tartarugas marinhas em Cabo Verde. Em 2016, foram gerados quase 900.000€ por meio de excursões de “observação de tartarugas” e através do emprego de funcionários de todas as ONGs que trabalham na área em Cabo Verde. Atualmente, acredita-se que esse número tenha aumentado consideravelmente.

Ameaças às Tartarugas Marinhas de Cabo Verde

Mudanças climáticas

Degradação de habitats e perturbação dos ninhos

Poluição Luminosa

Caça

Cães abandonados

Poluição marinha

Perda de habitat

Captura acidental e redes de pesca fantasma

Em construção...